Institucional · Manifesto

Por quem,
e para quem?

Muito se fala sobre o uso da inteligência artificial. Menos sobre uma questão anterior: quem participa da construção dessa tecnologia — e para quem ela é construída.

Os sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos a partir de enormes volumes de conhecimento registrado. Mas esse conhecimento não representa o mundo de forma completa ou neutra.

Quem conseguiu produzir esse conhecimento?

Quais experiências foram registradas?

Quais perspectivas ganharam escala?

E quais permaneceram pouco representadas ou sequer chegaram aos dados?

Essas perguntas importam porque tecnologia não nasce fora da sociedade. Ela incorpora escolhas, prioridades, referências, limites e ausências do mundo em que foi produzida.

E esse mundo ainda está longe de ser justo, diverso, plural e inclusivo.

O CLIC parte dessa realidade.

Precisamos de pessoas com profundo domínio técnico da tecnologia. Mas precisamos também ampliar o número de pessoas capazes de compreendê-la, questioná-la, construir com ela e participar das decisões sobre seus usos e seus limites.

Pessoas de diferentes áreas carregam repertórios distintos sobre problemas, contextos, riscos e consequências. Quando entram no processo apenas depois que a solução está pronta, parte importante da decisão já aconteceu.

Por isso, diversidade não pode ser tratada como uma preocupação posterior ao desenvolvimento tecnológico.

Ela precisa estar presente na formulação do problema, na definição dos requisitos, na escolha dos dados, nos testes, na identificação de riscos e na decisão sobre o que um sistema pode ou não fazer.

Diversidade não é cliente nem produto. Diversidade é arquitetura.

Para o Estado, essa discussão é ainda mais importante.

A inteligência artificial já modifica mercados, relações sociais, serviços, formas de trabalho e processos decisórios. Ao mesmo tempo, o Estado regula, contrata, desenvolve e utiliza essas tecnologias.

Isso exige capacidade própria para fazer escolhas.

Não apenas capacidade para usar ferramentas, mas para compreender suas implicações, estabelecer limites, identificar riscos, formular alternativas e participar da construção das soluções.

É nesse espaço que o CLIC atua.

Ampliar competências para que mais pessoas possam ocupar, com autonomia e criticidade, os lugares onde a tecnologia está sendo pensada, construída e governada.

Porque talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que a inteligência artificial consegue fazer.

É quem está em condição de decidir o que ela fará, para quem e sob quais limites.

Carla Cristine Soares

Idealizadora do CLIC